Abikú – 2a. parte

Abikú é uma palavra de origem Iorubá-nagô e na realidade um culto feito em território nagô e que tem algumas diferenciações. Então nesses países Iorubá-nagô, quando uma mulher dá a luz a uma série de crianças que são natimortos, ou seja, nascem mortos, ou que morrem em idade muito tenra, principalmente aquelas que morrem nos primeiros sete a oito dias, antes do umbigo. A tradição determina que essa criança não se tratou na realidade a vinda ao mundo de várias crianças diferentes daquela mulher. Crer-se que essas diversas aparições são da mesma criança, do mesmo espírito que recebe o nome Abicu, que quer dizer aquele que nasce e morre ou aquele que já nasceu morto e que se julga que está tentando o nascimento, isso acontece por um breve momento e este espírito volta a Ilú, aiê, o país dos mortos e encontra-se naquilo que eles acreditam no Ilê Samô, é na realidade o que se entenderia por céu, o éter, porque o Orun dá um outro sentido, porque o Orun é o céu das divindades onde habitam as divindades o aba-órum, aonde tem todo esse processo da tradição dos Orixás, de modo que esse ser que está tentando nascer, passa assim um grande tempo indo e voltando para o seu lugar de origem e não permanecem encarnados por muito tempo porque causa muitas vezes grande desespero nos próprios pais que desejam ver os seus filhos vingarem, se tornarem vivos. Esses princípios do culto de Abicu se encontram principalmente entre os akan, onde as mães dos abicus são chamadas de Auômáu, que quer dizer, é aquela que põe os filhos no mundo para que eles morram ou nasçam mortos.

Os Ilús chamam os abicus de Obange e os alçais de Dan-uóbi e o povo farde de Olça-marrá, tudo isso está dentro do culto de abicu. Essas informações encontradas a respeito dos abicus formam oito itans. São oito histórias dentro do culto de Ifá, no sistema divinatório do povo Iorubá e estão classificados dentro dos 256 Odus e podemos dizer que estas lendas, estes mitos mostram que os Abicus formam sociedade no Aba-Órum, que quer dizer, o espaço, o Ilê Samô, lá onde está o Orún.
 
O orún é uma camada aonde habitam as divindades no culto Iorubá. O orún para o culto Iorubá se divide em nove camadas ao total. Quatro camadas superiores, aquelas que estão no Ilê-samô, lá em cima. Ilê Samô, o céu. Essas camadas chamam-se Aba-órum. A camada que está embaixo, próximo ao povo, a terra, chama-se Umbé-ererin-órum e a camada do meio, aonde hoje habitamos, entre a que está em cima, o abá-órum e o emérim-órum e o emerérin-órum, chama-se Idhé-chelé-órum, que quer dizer a camada dos vivos e essas camadas são presididas por uma divindade chamada Iádiá-ançá, que quer dizer a mãe que bate e corre  quando são filhos meninos é Olócó que quer dizer chefe de uma tribo, para as meninas; mas é justamente o Alá-aiê, o rei de Auá-Aiê, lá se encontra uma floresta sagrada dos abicus, aonde os pais de abicus vão fazer oferendas para que eles permaneçam vivos e dêem as alegrias desejadas. Segundo esses conceitos, quando essas criaturas vêm do céu para a terra, os Abicus passam os limites do céu diante do guardião da porta que chama Sonibodé-Órum e esse guardião é o Exú Odixê que guarda a passagem do que está em cima com o que está embaixo e seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo, os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão encarnados. Se prometerem aos seus companheiros que não ficarão ausentes, essas crianças apesar de todo esforço de seus pais retornaram através do Sonibodé-órum para o seu local que pra lá elas vão encontrar os espíritos, os amigos que por lá deixaram.
 
Contam os mitos que a primeira vez que os Àbíkú vieram para a terra foi em Awaiye e constituíam um grupo de 280, trazidos por Alawaiye, chefe no Orún. Segundo o mito, cada um deles tinha declarado ao passar a barreira do Onibodé-órum o tempo que iria ficar no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto a mãe que iria gerar o seu corpo, um outro, ia esperar até o dia que seus pais decidissem que ele se casasse e um outro que retornaria ao céu assim que seus pais concebessem um novo filho, um que ainda não esperaria mais que o dia que começasse a andar. Outros prometeram respectivamente ficar no mundo somente sete dias, até cair o umbigo, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dente ou ficasse de pé, ou seja, um curto período de vida reencarnado e o carinho dos pais, o amor que recebessem ou os presentes não seriam capazes de retê-los no Aiyé.
Alguns assumiram o compromisso de que nem nasceriam. Esse pacto deveria ser cumprido e os seus companheiros no Orún manterem-se presentes na sua vida, interagindo no seu dia a dia, para que não o esquecessem e retornassem ao Orún tão logo o momento pactuado ocorresse.
 
As histórias de Ifá nos dizem que oferendas são feitas com conhecimento de causa e que são capazes de reter no mundo estes espíritos abicus e de lhes fazerem esquecer suas promessas de volta, rompendo assim o ciclo de suas idas e vindas constantes entre o céu e a terra porque uma vez que o tempo marcado para a volta já tenha passado, os seus companheiros se arriscam a perder o poder sobre eles e assim é que nessas histórias encontramos oferendas que comportam troncos de bananeiras acompanhados de diversas outras coisas como, por exemplo, um itan diz que um caçador que estava à espreita no cruzamento do caminho dos abicus lá na passagem escutou quais eram as promessas feitas por três abicus, quando a época do seu retorno ao céu.
 
Um deles prometia que deixaria o mundo assim que o fogo utilizado por sua mãe para preparar uma papa de legumes se apagasse por falta de combustível.
 
O 2o. esperaria que o pano que a sua mãe utilizava para carregá-lo nas costas se rasgasse 
 
3o. esperaria para morrer no dia em que seus pais lhe dissesse que era tempo dela se casar e ir morar com o seu esposo. 
 
O caçador então vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos abicus e aconselha:
 
 1a. – que não deixasse se queimar inteiramente a lenha sobre o pote que cozinha os legumes que ela prepara para o seu filho, aquela sopa. 
 
2a.  –  disse que não deixasse rasgar o pano que ela ia usar para carregar o filho nas costas e que ela usasse um pano de qualidade diferente. 
 
3a.  –  para a mãe não especificar o dia ou a hora em que sua filha deveria ir para a casa do marido. 
 
As três mães então resolvem consultar a sorte no Ifá e lhes são recomendadas que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra, de um galo e pedindo por meio destes subterfúgios que os três abicus pudessem manter o compromisso de voltarem, desencarnarem, porque se a 1a. estala um tronco de bananeira no fogo destinado a cozinhar a papa do seu filho antes que ele se apague; o tronco de bananeira cheio de seiva e esponjosa não poderia queimar e o abicu vendo uma racha de lenha não consumida pelo fogo veria que o momento de sua partida ainda não havia chegado. 
A pele de cabra oferecido pela 2a. mãe serviria para reforçar o pano que ela usaria para carregar o filho nas costas. A criança abicu não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter a sua promessa. Não se sabe bem o oferecimento de um galo, mas o itan conta que quando chegou à hora de dizer para a filha já uma moça que ela deveria ir para a casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e enviaram-na bruscamente para a casa do marido. Nossos três abicus não podem mais manter a promessa que fizeram porque as circunstâncias que devem anunciar a sua partida não se realizaram tal como eles haviam previsto diante da passagem entre o céu e a terra e estes três abicus reencarnaram, eles não iriam mais morrer, eles seguiriam outro caminho.
 
Comentando essa história com alguns detalhes porque ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função, não é o seu lado da lenda que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em países Iorubás, a sorte, o destino, o caminho pode ser modificado numa certa medida quando certos segredos são conhecidos, entre as oferendas que retém os abicus na terra, que fortalecem a sua reencarnação, figura em 1o. plano principalmente os caminhos das ervas, podemos falar de algumas delas: mamona vermelha, amendoeira, folhas de amora e de outras determinadas folhas como a abomina e assim por diante, a beldroega tanto a pequena como a grande, mas para isso tem que ter conhecimento para se proceder os rituais de maceração, de utilização, os ofó que na realidade são encantamentos que são recitados e às vezes cantados para evocar esse tipo de força e fazer a solidificação no corpo daquela criança, daquela criatura, deste espírito abicu que quando vem para reencarnar promete que não vai ficar a sua própria mãe espiritual. 
Temos ainda duas plantas que são freqüentemente utilizadas para reter os abicus, segurar essa encarnação e que não estão dentro dos ritos, das lendas que é o Olobotu-dhé que é uma trepadeira e o Opá-eméri está dentro do culto da ancestralidade onde os abicus estão contidos porque eméri é o primeiro caminho do abicu dentro da família de abicu de cinco caminhos: do eméri, do emesan, do apatobi, do abicutun e do abigurun que estão dentro do princípio de tudo isso.
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