O Sacrifício

O sacrifício na realidade não é sinônimo de assassinato relacionado que está a rituais sagrados, visando no Candomblé ampliar, acumular e distribuir a força vital e sagrada que é o axé. 
Boa parte das religiões utilizava sacrifícios em seus rituais, mas na maioria das vezes com sentido expiatório, não se aplicando essa noção ao Candomblé, por um motivo aparentemente simples. Entre os cristãos, por exemplo, a extinção dos sacrifícios em termos reais justifica-se pela morte de Jesus Cristo que teria morrido para salvar a humanidade e o mais importante sacrifício a que o mundo assistiu. Ocorre que Jesus morreu pelos cristãos e não pelo Candomblé, isso significa na realidade que os ritos processados em outras doutrinas religiosas não fazem nenhum sentido para os Orixás, da mesma forma que os rituais do Candomblé fogem à compreensão da Igreja Católica; em outras palavras o Candomblé só se explica pelo próprio Candomblé. Na realidade, os processos, os sacrifícios existentes dentro do Candomblé, não adianta recorrer a Bíblia Sagrada para justificar ou muito menos condenar a prática da religião dos Orixás.
O sangue é de importância vital para os Orixás, pois está ligada a concepção, a fertilidade, o nascimento e a todas as etapas da vida. Sem sangue não há axé. Ninguém nasce sem sangue. Quando deixar de haver sacrifícios, o Candomblé com certeza deixará de existir. Não se derrama o sangue dos animais por maldade, por crueldade, muito menos para fazer mal a alguém.
O sacrifício é a condição para que a vida continue e não apenas no Candomblé, todos se alimentam seja de carne, seja de vegetal e um boi só pode ser comido em bifes, ou seja, em partes e depois de morto. Uma alface ao ser desconectada de sua raiz também é morta. Por que não se pode atribuir o significado religioso a um ato essencial para sobrevivência humana? Será mesmo que a condenação do Candomblé se deve ao sacrifício? Não seria essa uma forma da sociedade camuflar preconceitos e  até mais profundos? O ritual macabro não está nos Candomblés e sim nos matadouros onde os animais são submetidos a inúmeras crueldades e morrem com muito sofrimento. Imagine o animal ainda vivo vendo a sua pele arrancada, isso é um exemplo, do que ocorre nos matadouros e é por isso que a carne que será consumida pelos iniciados deve ser sacralizada por meio de rituais específicos. A carne de um animal que morreu com sofrimento não faz bem a ninguém.
Os judeus, os muçulmanos, por exemplo, só consomem carne de animais abatidos de acordo com seus preceitos. Por que o Candomblé não pode fazer o mesmo? É um absurdo acusar o Candomblé de fazer sacrifícios humanos como tem feito alguns segmentos religiosos opostos ao Candomblé. São sacrificados sim: bois, bodes, galinhas, patos, galos, gansos, pombos, e muitos outros animais que dependem do ritual o qual o Orixá pede e que depois serve de alimento a comunidade, mas nunca seres humanos, pois o Orixá vive do homem e através do homem.
Todo homem sacrifica não necessariamente no sentido religioso e mata para sobreviver. Que mal pode haver oferecer aos deuses as partes em que os homens não consomem. Na Bíblia Sagrada, numa das passagens mais marcantes, Abel “imolou” (sacrificou) um carneiro, para Deus e o mesmo foi aceito. No fundo, se estava repetindo um ato já praticado, provavelmente advindo dos africanos. Após sacrificar o animal, cujo sangue é derramado em local determinado, são retirados os “axés”, que são as vísceras principais (moela, rim, pulmão, coração…) que serão fritas ou cozidas, colocadas num oberó (prato de barro|) e oferecidas como complemento, e a carne será consumida pelas pessoas.
A forma como são utilizados o sangue e as demais vísceras dos animais tem uma causa e um objetivo nobre, o de produzir uma energia: o axé, já tantas vezes mencionado, que irá cumprir uma função de maior ou menor importância, beneficiando o alvo de qualquer religião: o ser humano.
O sangue é um forte elemento portador de energia. Dentro de uma ótica-cristã-judaica, o sangue era o principal elemento catalizador de ofertas e oferendas a Deus. A aplicação do sangue de Cristo para salvar vidas aparece de diversas maneiras nas Escrituras Hebraicas: os numerosos sacrifícios de sangue, especialmente os oferecidos no dia da Expiação, eram para a típica expiação de pecados, apontando para a verdadeira remoção de pecados por meio do sacrifício de Cristo. 
Um ebó pode ser definido como um ato de se fazer uma oferenda do reino animal, vegetal ou mineral, de comidas, bebidas e qualquer objeto, a uma divindade ou entidade espiritual. É um ato mágico-religioso que se utiliza das forças naturais existentes nesses elementos para um determinado fim. Por esse motivo, costuma-se dizer que a oferenda revela-se como a maior fonte de comunicação entre todas as forças do universo. 
A palavra Ebó significa sacrifício e vem de bo – alimentar; palavra usada somente para Orixá, coisas e animais, nunca para uma pessoa.
Na língua Iorubá não há diferentes nomes para definir o sacrifício de animais, plantas, de oferendas ou trabalhos determinados pelos Odu-Ifá. Tudo é conhecido por um só nome: ebó. Há uma tendência de se atribuir qualidades parecidas dos humanos aos Orixás, a quem as oferendas são feitas. Eles podem ouvir tocar, sentir nossas emoções, têm apetites, desejos e tabus semelhantes aos seres humanos. Para manter essa comunhão ofertam-se de forma regular as oferendas sob diversas formas, de acordo com a situação que se almeja.
Na realidade os maiores mitos na cultura africanista pregam à caça como Oxóssi que se fez Orixá e se fez lembrado, se fez responsável, se fez rei de Ketu por ser caçador, por ser Odé. Como outros Orixás, como Ogum que também caça que também mata, mas qualquer itan, qualquer estória que se pregue, que se professe dentro da cultura africanista, vai se achar no final  da estória a razão pela qual foi sacrificado o animal chega a ser mais nobre que outros sacrifícios que existem em outras seitas, em outros segmentos religiosos.
Lembrem-se de que Jesus foi condenado à morte por pessoas que viviam a sacrificá-lo, depois fazendo hipocritamente o sinal da cruz, adorando a sua imagem ensanguentada. O Candomblé não é contra a cultura, não é anti-Bíblica, mas com certeza contra a hipocrisia dos homens, que mataram Jesus. Nós não matamos aos nossos Orixás, nós os amamos com todos os seus defeitos e qualidades. Nós amamos Ogum, senhor das guerras, ainda que para fazer a guerra tenha que matar, pois não existe uma guerra sem mortes, não existe uma guerra sem derrotados. Nós amamos Iansã com o seu poder de guerra, mas Oyá jamais vai ter forças na sua adaga se não cortar, e assim amamos os Orixás cada um com sua essência, cada um com a sua base, cada um como são e nós não matamos os nossos Orixás.
Para o Candomblé tudo o que a natureza produz é sangue, pois o que define o sangue é a força que detém, ou seja, o Axé, e um sacrifício requer a utilização com vários tipos de sangue vindo das mais variadas fontes da natureza atribuindo vida e sentido ao Orixá, aos homens e a própria existência.
O elemento mais precioso do Ilê é a força que assegura a existência dinâmica. É transmitido, deve ser mantido e desenvolvido, como toda força pode aumentar ou diminuir, essa variação está relacionada com a atividade e conduta ritual. A conduta está determinada pela escrupulosa observação dos deveres e obrigações, de cada detentor de Axé, para consigo, seu Orixá e para o seu Ilê.
O desenvolvimento do axé individual e do grupo impulsiona o axé do Ilê. A força do axé é contida e transmitida através de certos elementos representativos dos reinos: animal, vegetal e mineral, quer sejam da água doce ou salgada – da terra, floresta – mato ou espaço urbano. Está contido nas substâncias naturais e essenciais de cada um dos seres animados ou não, simples ou complexos, que compõe o universo. Os elementos portadores de axé podem ser agrupados em três categorias:
1 – “Sangue” Vermelho;
2 – “Sangue” Branco;
3 – “Sangue” Preto;
1 – O “Sangue” Vermelho 
        No Reino Animal é representado pelo fluxo menstrual, pelo sangue dos animais, pelo sangue humano, portanto todas as pessoas são portadoras de axé.
        No Reino Vegetal o epô (azeite de dendê), ossún (pó vermelho), mel (sangue das flores), favas (sementes), vegetais, legumes, grãos, frutos (obi, orobô), raízes…
      No Reino Mineral os metais como bronze, cobre, areia, otás (pedras), barro, terra, são portadores de sangue vermelho.
O sangue vermelho está mais diretamente relacionado as coisas quentes, ao movimento e ao fogo, razão pela qual os Orixás exigem uma quantidade maior desses elementos, dominam exatamente esses aspectos da natureza como Exú, Xangô, Iansã.
2 – “Sangue” Branco – Associado à água e o ar.
       No Reino Animal vem simbolizado através do sêmen, a saliva, emí (hálito, sopro divino), plasma (em especial do igbin – espécie de caracol), inan (velas). O igbin sacrificado a Oxalá é um bom exemplo de animal de sangue branco.
       No Reino Vegetal – Favas (sementes), seiva, sumo, álcool, bebidas brancas extraídas das palmeiras e de outros vegetais, Yiérosùn (pó claro, extraído do Iròsún), pó utilizado pelos Babalaôs do Opelê-Ifá, Ori (espécie de banha vegetal), legumes, grãos, frutos, raízes…
        No Reino Mineral – O sal, efun (espécie de giz), a prata, o chumbo, otás (pedras), areia, barro, terra.
Todos esses elementos são portadores de axé e combinados reforçam, ampliam ou estabelecem a relação entre os homens e os deuses.
3 – “Sangue” Preto
        No Reino Animal – Cinzas de animais sacrificados.
   
    No Reino Vegetal – A cor verde, assim como o azul são variações da cor preta. O sumo escuro de certas plantas, o ilú (extraído do índigo), Wáji (pó azul), carvão vegetal, favas (sementes), vegetais legumes, grãos, frutos, raízes…
       No Reino Mineral – Carvão, ferro, osum, otás, areia, barro, terra.
A esses elementos relacionam-se mais diretamente aos Orixás da terra como Ogum, Oxóssi, Obaluaiê e muitos outros. 
O axé é uma força vital que pode ser acumulada, aumentada com o sacrifício, a utilização das mais variadas fontes de axé provenientes de todos os reinos d natureza e que fortalece o poder do Orixá e também do Candomblé. Uma casa de axé ao ser iniciada, ao ser fundamentada, ao ser fundada, o sangue é a base que dá segurança através dos assentamentos de portão, onde com certeza sacrificam-se frangos para os Exús responsáveis e sejam quais forem.
Aos Orixás de fora chamados conjunto de Tempo, Orixás que passam para os seguidores, para os membros, para a comunidade em si do axé, caminhos no sentido Ogum; fartura, prosperidade no sentido Oxóssi; literatura, cultura, sabedoria no sentido Ossaim e com certeza muita saúde no sentido geral a todos do axé nos caminhos de Omulu, Obaluaiê .
Meu Pai Bessém vem mostrando o eterno ciclo da vida, a eterna continuidade, deixando claro não só para o Babalorixá, mas para todos os membros dessa comunidade que o Candomblé é um círculo, um grande círculo da vida onde pessoas chegam, pessoas saem, pessoas vem, pessoas vão, pessoas que com certeza participam, mas também se vão, pessoas que convivem espiritualmente e materialmente dentro do axé e depois também se vão espiritualmente e materialmente no axé. 
Todas as forças, todo o segmento no ariaxé central, alimentando a terra, tornando a terra fértil, tornando aquele lote de terra, esse lote sagrado chamado casa  de axé, sala de candomblé, corte, pois os quatro cantos também fundamentados mostrando a grande esteira energética que é formada, que é montada numa casa de axé, numa sala de candomblé, onde Xirês acontecem, obrigações são presenteadas à sociedade, aonde apresentações sociais espiritualistas são consagradas a cultura africanista através do balé encantado dos Orixás, através do corte mágico de Ogum, através da adaga brilhante de Oyá, através do dengo, do charme, do chamego de Oxum, através da penumbra, através da lacuna que fica aberta entre a alegria e a tristeza nos caminhos de Obaluaiê, aonde Nanã enaltece a vida e a morte, aonde Xangô mostra a sua realeza, mostra que apesar da morte existir, a vida ainda é mais importante, aonde Oxalá com seus passos cansados e ambíguos vem dançando suavemente mostrando que não se tem pressa para nada, que aqui estamos, daqui iremos, mas daqui voltaremos e daqui com certeza iremos novamente e assim segue toda essa base que é construída através de sacrifícios de animais, oferendas anuais que são feitas no decorrer da necessidade, no decorrer do cotidiano de uma casa de axé, aonde muitas vezes professa-se de forma negativa, professa-se de forma errada mas ainda assim o Candomblé não pode ser mudado pelo sacrifício existente dentro do mesmo, mostrando que a cultura africanista desde que o mundo é mundo, é primordial para a convivência humana e que o sacrifício feito, praticado, oferecido ritualisticamente nas casas de Candomblé fazem parte da essência, da base lá do primeiro clarão de vida, no surgimento do mundo, lá do primeiro estrondo e que ecoou no deserto, que ecoou no vácuo mostrando assim que o mundo seria uma grande fonte de energia e com ela seria renovado cada elemento, renovado cada ser.
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Ogam Suspenso e Ogam Confirmado

ogan

 

Pode ocorrer durante uma festa de Candomblé, alguém possa ser escolhido para ser Ogam, um cargo masculino de pessoa que não se manifesta com nenhuma divindade, e que somente galga o posto, mediante a escolha direta de um Orixá. Se for Iansã, ele será um Ogam de Iansã, independente do Orixá que ele possua. O Orixá o pegará pelo braço e dará um breve passeio pelo salão, apresentando-o a todos, com um cântico que costuma ser modificado conforme a casa.

“Jí olóyé Ióloyè

A ta taròde”

Suspendemos o titular

Que terá a riqueza do título

Uma cadeirinha formada com os braços, por dois Ogãns mais velhos, o conduzirá a uma cadeira, sentando-o após três tentativas obrigatórias. A partir daí será considerado um Ogam Suspenso, merecedor de honrarias, até que seja iniciado e tenha o seu Orixá assentado. Se for Ogum, fará as obrigações para este Orixá, juntamente com um ritual para o Orixá que o apontou.

 

Todo Ogam deve passar pelo ritual do bólónàn, para verificar a sua condição de ter apenas o santo assentado, ou se houver alguma manifestação, ser recolhido como adósù, o equivalente a Iyawo. A intenção é confirmar a impossibilidade de uma manifestação com o objetivo de evitar que no futuro ele venha a se aventurar como pai de santo, sendo este o momento de comprovação. Neste caso, não há necessidade das mesmas obrigações de um Iyawo, e varia de acordo com os preceitos de cada casa, como por exemplo, cortar os cabelos e raspar a cabeça, entre outros atos.

 

 

Alguns Ogãns, devido ao conhecimento que adquirem, passam a agir como zeladores de santo, fazendo coisas para os quais não foram destinados.

Sob o ponto de vista iniciático, os Ogãns se tornam fiéis à Casa que os iniciou, pelo fato de não poderem mais ser novamente confirmados em outra Casa, no caso de alguma futura insatisfação. É uma situação contrária a dos Adósù, que tem a liberdade de mudar de Candomblé diante de alguma divergência, e fazer suas obrigações com outros dirigentes. Aos Ogãns, é apenas dado o direito de serem homenageados por outros Candomblés, com algum título de reconhecimento pela sua competência religiosa.

 

O recolhimento tem a duração de tempo menor do que a de um Iyawo, o que demonstra ritos menos complexos. Em sua apresentação pública, será conduzido pelo próprio Orixá que o escolheu, que dirá o seu novo nome, terá sua cadeira exclusiva sendo chamado de Pai e todos lhe tomarão a benção. Passará a usar um boné branco, Filà ou Àketè, símbolo de sua posição, embora muitos não tenham o hábito de usá-lo. Terá um Oyè, um título especificando sua real função e será sempre uma pessoa a quem todos poderão recorrer para sugestões e ajuda, de acordo com sua competência e dignidade moral.

 

Alguns títulos que definem as reais funções de um Ogam:

  • Candomblé Ketu: Alágbé, Aràmefà, Apogan, Bàbá Egbé, Ajimudà, Sárépégbè, Asògún, Apótún, Sobalojú, Asógbá, Afikode, Ojú Oba, Elémòsó, Oji Ode, Balógun, Balè.
  • Candomblé Jeje: Pejigan, Bajigan, Hunto, Gan, Gainpe, Oganvi
  • Candomblé Angola: Tata Utala, Tata Kambondo, Kinsaba, Kivonda ou Kixikaramgome Pokó, entre outros.

O grupo de tocadores é dirigido pelo Alágbè, que se ocupa de tocar o maior dos três atabaques, comandando o ritmo e impondo uma variedade enorme de toques e efeitos como um autêntico regente. Os outros o acompanham, um deles utilizando o Agogô, uma campânula de ferro para fazer a marcação, sem qualquer forma de diálogo que não seja através do ritmo. Ao Alágbè compete “dar rum ao santo”, ou seja, homenagear o Orixá com cantigas que ressaltam seus atributos.

 

 

A expressão vem do Iorubá, Dáhún, responder (pronuncia-se darrum). Nos Candomblés Jeje, os Voduns costumam cantar alguns cânticos junto aos atabaques. Quando isto acontece, o Ogam responde com outros cânticos. Este ato de responder justificou a expressão Dáhún ao santo.

 

 

Os cânticos possuem a parte cantada pelo Alágbé, que é o solista, e a parte cantada pelo coro composto pelas pessoas que dançam na Roda. Às vezes cantigas suaves como as de Oxum, outras mais vibrantes como as de Xangô ou Iansã. Todos os momentos do Candomblé têm relação com a musicalidade sagrada.

 

 

Nos Candomblés da Nação Angola, os atabaques são denominados de Ngoma, e são percutidos com as mãos. Somente no ritual fúnebre do Sihun, são usadas varetas, talvez por influência jeje. Os toques são denominados de Cabula, Congo e Barravento.

A Importância da Galinha d’Angola no Culto aos Orixás

Naquele tempo a galinha d’angola era inteiramente preta e vivia só e infeliz dentro da mata. Para resolver seus problemas de solidão, foi consultar o adivinho de Obatalá para que lhe indicasse um ebó que lhe permitisse conseguir uma companheira como todos os demais bichos possuíam. Chegando à casa do adivinho, o pobre animal não foi por ele recebido porque, sendo completamente preto, não poderia entrar numa casa onde o Orixá do Branco era cultuado, pois a cor preta era considerada como uma grande ofensa.
Desolado, o bicho que apesar de viver só era muito rico, reuniu uma grande quantidade de alimentos e saiu sem rumo, na esperança de encontrar em outro lugar qualquer, alguém que lhe fizesse companhia.
Depois de muito caminhar encontrou, numa clareira, um velho muito estropiado que gemendo, estendeu-lhe as mãos dizendo:
– “DÁ-ME UM POUCO DE COMIDA E DE ÁGUA, POIS ESTOU EXAUSTO E JÁ NÃO POSSO CONSEGUIR ALIMENTO PARA MINHA PRÓPRIA SOBREVIVÊNCIA”.
Condoído, Etú serviu de seu próprio alimento ao velho e saciou-lhe a sede com a água que trazia dentro de uma cabaça.
Logo que acabou de comer, o pobre velho, de tão enfraquecido, caiu em sono profundo e, ao despertar muitas horas depois, deparou com Etú que preocupado, velava por seu sono.
Já refeito, o velho perguntou:
– “que fazes sozinho no interior desta floresta? não sabes que ela é sagrada e que só os iniciados podem adentrá-la?”.
– “ando sem destino. nasci só e sempre vivi só. minha aparência é muito repugnante e minha feiura impede que as pessoas permitam que me aproxime delas”. Replicou a ave.
– “tua feiura exterior nada é, comparada com tua beleza interior. aproxima-te mais e, como recompensa pela tua bondade, modificarei um pouco a tua aparência”.
Ordenou o velho.
Pegando pó de efun o velho, que outro não era que o próprio OBATALÁ, soprou sobre o corpo de Etú deixando-o, a partir de então, todo pintalgado. Reunindo alguns elementos sagrados, modelou um cone que colocou no alto de sua cabeça dizendo:
– “A PARTIR DE HOJE, SERÁS O ANIMAL MAIS IMPORTANTE NA RELIGIÃO DOS ORIXÁS, NADA PODERÁ SER FEITO SEM A TUA COLABORAÇÃO E, COMO SINAL DESTA IMPORTÂNCIA, SERÁS O ÚNICO DENTRE OS SERES VIVOS A PORTAR O OXÚ, SÍMBOLO DA ALIANÇA FORMALIZADA ENTRE O INICIADO E SEU ORIXÁ. POSSUIRÁS, ALEM DISTO, TANTAS FÊMEAS QUANTAS QUISERES E TUA PROLE SERÁ NUMEROSA E SE ESPALHARÁ SOBRE A TERRA”.
Por este motivo a galinha d’angola possui o corpo coberto de pintas e carrega sobre a cabeça uma crista cônica, assemelhando-se ao neófito durante o ritual da iniciação. Sua presença em todas as cerimônias iniciáticas é indispensável e todos os Orixás a exigem em seus rituais.

Porque Vestir Roupa Branca Nas Sexta-feira?

Na cidade Ilé-Ifé existe um templo muito antigo, onde todas as sextas-feiras as pessoas se trajam de branco e vão Orar para Ifá, pedindo harmonia para suas vidas e paz no planeta.

 

Isso, pelo fato da “sexta feira” ser considerado o dia, mais terrível da semana, extremamente pesado e mais agitado comparado aos outros dias.

 

Porque?

 

É sabido que é na sexta feira que os tratados de guerra são fechados, geralmente é quando são assinadas as declarações de falência financeira, rescisões de contratos (prejuízos – perdas), também é o dia que mais ocorre todo tipo de conflitos e fatalidades como: brigas, traições, separações conjugais, internação em hospitais, acidentes e maior número de mortes no mundo.

 

Por outro lado, é também o dia de folia com bebedeiras, libertinagem, embriaguez, maior uso de drogas, vandalismo, abuso sexual, confusões, traições conjugais, inimizades.

 

Portanto, à sexta feira é o dia em que mais ocorre perdas, roubos, prisões, intrigas, provocações, fofocas, discussões, acidentes e muitas outras fatalidades com avultosos números de óbitos no mundo inteiro.

 

Agora fica bem esclarecido que os reais motivos de nos trajarmos com roupas brancas nas sextas-feiras é na finalidade de entrarmos em sintonia com a luz e a pureza de Ifá e Obatalá.

 

Dessa forma, nos manteremos neutros e isolados dessas possíveis fatalidades, fermentadas pelas forças malignas, chamadas de AJOGUN.

Oxóssi mata a grande Dan (Lenda)

Conta a lenda que certo dia, Oxóssi chegou em sua aldeia quase arriado pelo peso da capanga, das cabaças vazias, pelo cansaço de rastrear a caça rara.

 

Oxum sua mulher e mãe de seu filho olhou para ele e pensou “só caçou desgraça, pois a desgraça para Oxóssi foi prevista por Ifá que alertou Oxum”, porém quando ela contou a Oxóssi sobre essa previsão, ele disse que a desgraça era a fome.

 

A mulher sem leite, a criança sem carinho e que desgraça maior era o medo do homem. Quando Oxóssi se aproximou de Oxum ela notou que ele trazia algo na capanga. Sentiu medo e alegria. Havia caça na capanga do marido e aí imaginou se seria um bicho de pêlo, se seria um bicho de pena. Ansiosa perguntou a ele que respondeu: “-Trago a carne que rasteja na terra, trago a carne que rasteja na terra e na água, no mato, e no rio, o bicho que se enrosca em si mesmo”. Falando isso retirou da capanga, os pedaços de uma grande cobra.

 

O bicho revira a cabeça. Revirava a cabeça e os olhos, agitava a língua partida e cantava:

 

– “Não sou bicho de pena para Oxóssi matar”.

 

A cobra pretendia dizer com certeza que pertencia a Xangô e Oxóssi não poderia tê-la matado.

 

Oxum fugiu temendo a vingança de Xangô e foi consultar Ifá que disse:

 

 – “A justiça será feita, assim o corpo de Oxóssi irá desaparecer, apagando-se da memória da grande cobra. O ouê desaparecerá da vingança de Xangô e fazia parte da punição que Oxóssi saísse da memória do povo de Ketú”.

 

E ele ficou por sete anos esquecido.

 

No dia do Oruncó, o nome do Orixá de cada um, o povo de Ketú começou a chorar por não lembrar o nome de seu rei. Abaixaram-se os olhos e tentaram compreender porque nunca se lembravam dele. Então Ifá ensinou-lhes um Orô, reza que se faz para o sacrifício dos animais. Após o Orô o povo começou a se lembrar de Oxóssi.

 

Ifá disse que esse era o Orô de Oxóssi, o Orixá caçador. Orixá da caça. Corajoso rei de Ketú, rei da caça que nada temia e preservava a vida dos seus filhos e dos filhos dos filhos de seus filhos. Em síntese, desconsiderar as previsões de Ifá e matar a serpente sagrada, com certeza Odé morreu, mas graças a piedade de Ifá que ouviu o lamento de Oxum e de seu povo, encantou-se, renasceu na figura de Oxóssi, o guerreiro caçador, senhor das matas, destemido rei de Alaketú.

Não se deve assoviar dentro de casa ou no Ilê. Por que?

assovio

 

Esù é o Dono do Assovio e assoviar é provocá-lo. 

Seus assovios são intempestivos e penetrantes de tal maneira que assustam os velhos, e estes não se atrevem jamais a assoviar, com medo que Esù responda.  É ele quem assovia nas paragens desertas e nas casas abandonadas, a noite é o domínio de “entidades” de todos os tipos, mas durante o dia há horas perigosas que convém levar em conta: o meio-dia e às seis da tarde, quando vagam algumas “entidades” durante alguns momentos e nestes horários Esù abandona as portas e as casa ficam sem defesa, e se assoviarem durante este período, qualquer um destes poderá entrar na casa… 

Esta é a razão pela qual se verte água na porta da rua e ninguém deve entrar ou sair de uma casa nestes horários. A meia-noite a pior de todas as horas, já transitam Egungun, Èsù e Àjés com toda liberdade, então em hipótese alguma assovie, sobre tudo em altas horas da noite…

Esù está difundido por todas as partes “em uma rede numerosa”, todos se comunicam entre si, se enganam mutuamente – “o Esù da porta, quando recebe a oferenda de um animal destinado, somente ele, dá um jeito de afastar o Esú da esquina” – ou se solidarizam uns com os outros por vingança. 

O que guarda a porta confabula com o da esquina, o da esquina com o dos quatro caminhos, o dos quatro caminhos com o da floresta e assim sucessivamente… Desta forma é necessário que o da porta esteja satisfeito, “que seja ofertado antes de todos” conforme dispôs Olófin, segundo certas versões de Ifá e de acordo com outras, para que não atrapalhe a trajetória normal da vida e para que este Esù não assovie para o Esù da esquina, o encrenqueiro e revoltado, o qual, por sua vez, não assoviará para o Esù dos quatro caminhos e este, para o Esù da Floresta e assim por diante… 

Se o da porta assoviar e se eles acudirem a seu chamado, todos se introduzirão numa casa e nela ocorrerá alguma tragédia lamentável. “Para aquele que assovia, todos os Esù entendem que lhe estão chamando para adentrar a casa e a pessoa padece as consequências…  É essencial contentar Esù e não provocá-lo com assovios ou com qualquer outro tabu… Emboscados em cada caminho, dispões de nossa vida em todos os momentos, pode jogar com ela como bem entender. Dono das chaves que “abrem e fecham os caminhos e portas”, do Além e da Terra, aos Deuses e Mortais… e as abre e fecha à sorte e à desgraça, segundo seus caprichos… embora pequeno, temos de considerar Esù, sem discussão, o mais temível dos Òrìsà… 

 

Então porque Òsányín assovia? Este direito lhe é concedido porque Òsányín pertence à família de Esù. Embora parente não seja e de forma alguma um “caminho de Èsù” e sim uma Divindade totalmente distinta, assim como Ale “o inventor da aguardente” também pertence a esta família, mas não é Esù. Se por um descuido você assoviar na mata se apresentarão Òsányín e Esù e a eles você deverá prestar conta do chamado… deixe esta prática de assoviar na floresta para os caçadores e admiradores de pássaros silvestres.

Albinos, as Pessoas Abençoadas por Òsàlá

    • ALBINOOKOK
Com efeito, podemos afirmar que a religião dos Òrìsàs, por meio das suas histórias, dogmas e costumes, consegue esclarecer tudo o que existe no mundo. Nessa oportunidade, vamos transcrever uma antiga história Nàgó, que nos explica o surgimento de pessoas albinas, que são consagradas à Òsàlá, mas que são dessa forma, por conta de uma magia inicialmente desenvolvida e praticada por Èsù, que a perdeu após uma disputa insensata com a grande Divindade Funfun.
 
Essa história nos ensina igualmente, que jamais devemos querer ser mais que os nossos mais velhos, que devemos respeitar a sua antiguidade, que não podemos aumentar a nossa idade de iniciação e que sempre devemos seguir as orientações dos nossos sacerdotes. Como costuma-se dizer  na Casa de Òsùmàrè: “orelha não passa cabeça”.
 
Naquela época, Èsù queria ganhar notoriedade e, para isso, queria convencer a todos que ele era mais antigo que Òsàlá. Ao longo de muito tempo eles discutiram com o objetivo de provar qual dos dois era o mais antigo. Òsàlá afirmava que quando Èsù surgiu, ele já estava no mundo há muito tempo.
 
Diante desse cenário, as demais Divindades se reuniram, propondo que Èsù e Òsàlá se confrontassem, com o objetivo de provar qual era o mais antigo. Ambos foram consultar Ifá, o Deus da Adivinhação, para saber o que deveria ser feito. Òsàlá seguiu todas as recomendações de Ifá, por outro lado, Èsù as negligenciou.
 
Quando chegou a data do confronto, todas as Divindades se reuniram para presenciar Èsù e Òsàlá disputarem o posto de mais antigo. Òsàlá inicialmente tocou Èsù que imediatamente caiu, fazendo com que as Divindades exclamassem: “Epa Baba”. Èsù, insatisfeito, levantou-se e tocou a cabeça de Òsàlá, tornando-o um anão. As Divindades ficaram impressionadas e, também, exclamaram “Epa Èsù”. Ao longo de um grande espaço de tempo, Èsù e Ósàlá ficaram disputando, tentando mostrar quem tinha mais poder, quem tinha mais magia e, por consequência, quem era o mais antigo.
 
Num dado momento, Èsù tirou de sua cabeça uma pequena cabaça (Ado), na qual tinha uma poderosa magia. Èsù pegou a magia existente dentro dessa cabaça e soprou em direção de Òsàlá, fazendo surgir uma grande nuvem branca de fumaça. Quando essa nuvem se desfez, Òsàlá não era mais um homem negro, ele havia si tornado totalmente branco (albino). Èsù começou a dizer: “Eu sou o mais velho, Eu sou o mais antigo, Eu tenho mais poder que Òsàlá”.
 
Òsàlá de forma muito serena e calma, retirou do seu Filá, um grande poder, impregnado de Asè. Ele pegou essa magia (Afose), tocando-lhe a boca, dando força às suas palavras. Feito isso, ele disse: “Èsù, eu ordeno que venha até mim e me entregue a sua cabaça com a magia que existe nela”. Èsù, hipnotizado pela força da palavra de Òsàlá, foi em direção do mesmo, entregando-lhe a cabaça com a magia. Todos exclamaram: “Epa Baba”. Òsàlá pegou a cabaça e mostrou a todos que estavam presentes, afirmando que, a partir daquele dia, somente ele, Òsàlá, teria o poder de tornar as pessoas albinas e que essa magia, que outrora pertencia a Èsù, era agora de sua propriedade, que ele era mais velho que Èsù.
 
Todas as Divindades ficaram espantadas com a forma com que Èsù obedeceu à Òsàlá e, começaram a exclamar: “Alabalaasè” (ele é o senhor da força, do poder). As Divindades falaram: “Òsàlá é mais antigo que Èsù, Òsàlá tomou o poder de Èsù”.
 
 
Òsàlá disse que, todas as pessoas albinas que surgissem no mundo, seriam fruto da sua vontade e que, seriam consagradas à ele e abençoadas por ele.
 

Texto copiado da Casa de Òsùmàrè

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