Mestre Zé Pilintra

Exatamente, o tradicional malandro que sobreviveu nos grandes centros no início do século XX. Nessa época, a arma preferida nas ruas era a navalha, que manejada com habilidade podia cortar um pescoço. Sem estudo para trabalhos mais leves, sem disposição para o trabalho pesado, somente os inteligentes malandros se davam bem, “limpando” os incautos em jogos de carta ou de dados.
Poderíamos dizer que há um Zé Pilintra original, que teria morado no Rio de Janeiro, então Capital da República. Mas como é normal acontecer, quando uma entidade assume um nome que a torna conhecida, pode ocorrer de outros espíritos, em locais distintos, se apresentarem com o mesmo nome. Assim, talvez exista alguma pequena diferença entre um Zé Pilintra do Rio de Janeiro e o outro da Bahia. A lenda reza que José Gomes da Silva nasceu pobre, no interior de Pernambuco. Era um negro muito forte e inteligente e acabou mudando-se para o Rio de Janeiro. Tornou-se um ás no jogo de cartas, era exímio com os dados. Misturado com a pobreza conheceu toda a miséria e precisava ganhar o seu a cada dia, com a fala mansa e o jeito esperto, sempre muito bem vestido para impressionar, com roupas leves, claras e o imprescindível chapéu.

A polícia perseguia os malandros, os gigôlos e homossexuais, não para feri-los e sim por serem fontes de dinheiro. Prender um malandro jogador, ou qualquer dos outros, era certo entrar dinheiro. Os jogadores tinham amigos, os gigôlos contavam com o socorro de suas mulheres, os homossexuais eram protegidos pelos amantes anônimos. Tudo isso com dinheiro é claro.

Logo, era importante não ser preso. Esse tipo de gente se especializava em todo tipo de luta, inclusive a capoeira, enfrentando a polícia “na mão”. Daí surgiram às lendas, dos malandros fortes e treinados, contra os quais era preciso enviar uma dúzia de soldados. Claro que se a polícia quisesse deter a qualquer custo o malandro, o gigolô, qualquer um, por mais que ele soubesse lutar, simplesmente usaria uma arma de fogo… Não, o jogo era imobilizar a “mina de ouro” para lhe tomar o dinheiro.
Foi nesse meio que viveu o José Gomes da Silva, que adorava a boêmia, era considerado o médico dos pobres e adorava crianças. Quando o Zé Pilintra começou a incorporar, houve um misto de curiosidade e surpresa. Afinal, não seria um espírito de luz, pois vivera do jogo, bebendo em excesso, adepto do vício do fumo, mulherengo e encrenqueiro. A explicação não tardou. Espíritos zombeteiros, realmente incultos, aproveitavam-se  dos médiuns, invadiam as casas de santo. Sugeriu-se no plano astral: quem melhor para combater os bandidos senão um bandido? Não que Zé Pilintra fosse um bandido, mas conhecia toda a malandragem, recebendo, por isso, a missão de ajudar nas casas de santo para limpa-los de espíritos indesejáveis. Ele não age como policial, mas a sua simples presença já assusta. Além disso, ele é especialista em conhecer os enganadores que se apresentam com nomes de outros, travando com eles um diálogo repleto de malícia, escarnecendo daqueles que tentam bancar os malandros.
Zé Pilintra gosta de roupas claras e confortáveis, sem esquecer o chapéu. Fuma e bebe a vontade. Não é mau, principalmente com as pessoas pobres, por quem nutre um carinho muito especial. Pedir a ele que faça mal a um pobre é algo muito perigoso.
Algumas pessoas tratam seu Zé Pilintra como ele sendo luz (escravo) de Oxóssi, mas seu Zé é seu Zé e nunca deixará de ser malandro. Adora pagodes e sabe brincar muito bem com um pandeiro. Se quiser agradar seu Zé, dê para ele beber cachaça no coco que é a sua bebida preferida, adora tira gosto do tipo: sardinha frita, queijo cortado em cubos, salaminhos, cerveja, enfim, tudo o que é gostoso.

Segundo estudiosos da nossa religião, Zé Pilintra é um personagem bastante conhecido tanto dentro dos cultos afro-brasileiros como também em razão de sua notável malandragem. Seu Zé tem sua imagem reconhecida como um ícone, um representante, o verdadeiro estereótipo do malandro, ou porque não dizer, da malandragem brasileira e mais especificamente  carioca. Sua história tem início nos cultos de Catimbó, onde segundo reza a lenda, teria sido um negro forte, exímio capoeirista e grande conhecedor das ervas. Teria ele migrado para o Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, juntamente com tantos outros nordestinos e aqui, sua fama cresceu mais ainda. Como outros retirantes, foi residir nos morros e transitava pelas áreas mais freqüentadas pela malandragem como Estácio, Zona portuária, Gamboa e na Lapa. Amante das prostitutas,  jogador, capoeirista, boêmio e sedutor, rapidamente criou fama e passou a ser respeitado pelos homens, adorado pelas mulheres e perseguido pela polícia. Existem várias versões para sua morte, mas todos são unânimes em dizer que foi morto pelas costas, à traição, posto que pela frente era imbatível. Desencarnado, virou mito e jamais foi esquecido.

Na Umbanda, baixa nos terreiros dentro da linha de Exú. No Catimbó, recebe o título de Rei ou Mestre e até mesmo no Candomblé é aceito e louvado. Fumando, dançando, bebendo e encantando, seja em qualquer um destes cultos, Zé Pilintra traz seus ensinamentos, sua sabedoria e malandragem para ajudar aqueles que buscam sua ajuda e proteção. Zé Pilintra é vaidoso, usa sempre um terno de linho branco, chapéu tipo Panamá, gravata vermelha, cravo ou lenço na lapela. Sua alegria e irreverência são a tônica em sua incorporação, transformando qualquer gira em uma grande festa, entretanto, que não se enganem aqueles que a estas sessões assistem: em meio à alegria e às brincadeiras e ironias, o seu Zé Pilintra vai realizando sua missão e ajudando seus seguidores e apadrinhando seus protegidos.

O mais importante de tudo isso é que este espírito é um grande e fiel amigo, sempre pronto a nos socorrer. Sarava Zé Pilintra! Saravá a malandragem!

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